02 janeiro 2018

cidadezinha

Era poente no extremo sul daquela cidadezinha. Bem ali adiante a mais esplendorosa paisagem se erguia. Não havia atrativos naquela região. Não havia festivais, nem clubes, nem pessoas importantes moravam ali. Mas nenhum dia era igual ao outro.
Àquela hora do dia o sol pintava seu percurso descendente no céu. Vermelhos, amarelos e azuis se misturavam de forma tal qual nenhum pintor jamais viu. Gaivotas davam voltas e mergulhavam no ar, riscando e pincelando pontos brancos e negros aqui e alí. E sob aquela obra de arte se estendia um mar de águas puras. O azul esverdeado constatava com o dourado do sol nos seus últimos momentos. Aquele não era um mar próprio para pescadores. As suas águas eram inconstantes e incertas. Durante a manhã poderiam parecer serenas e tranquilas pela superfície, mas o entardecer e o cair da noite revelavam suas profundidades turbulentas e perigosas. Nenhuma alma vivente se ousaria a nadar nessas águas, a ficar à deriva e a se deixar levar. Ninguém abriria seus braços e fecharia seus olhos, deitando-se de costas para ser conduzido até onde deveria ir. Havia beleza e tormenta ali. Docilidade e terror. Era aprazível aos olhos distantes, mas a força bravia que movia suas ondas, seus cais e sua vegetação impedia qualquer um de as aproximar.
Quantos marujos e pescadores de aventuraram apenas para serem destruídos pelos vendavais? Aquela pobre cidadezinha com sua paisagem viveriam para sempre isolados do mundo ao seu redor. Cheios de tesouros presos dentro de si. Solitários, atrás de sua barreira invisível de braveza, dor e morte.
Eu sou a cidadezinha, sou a paisagem, sou a superfície e a profundidade. Eu sou tudo o que há descrito é tudo o que não há. Há mais de mim do que eu conheço, nunca menos do que vejo. Eu sou distância por precaução, um amor cheio de feridas que jamais cicatrizam. Eu sou beleza e terror, eu sou tudo o que fui, envolta em tecidos duros como pedra: impedida de sair, impedindo de entrar.

01 novembro 2017

o sonho de uma sombra - píndaro

A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

30 maio 2017

homem que sou

Sou pó
Do chão erguido
Por dentro, vazio
Da terra nascido
Até que em mim
Soprou a vida.
Sou vivo
Perfeito em essência
Um ser, completo
De vós, imagem
Até que em erro
Então caí.
Sou caco
Pedaços quebrados
Longe do eterno
Minha vida se esvai
De novo vazia
Retorna ao pó.
És vida
Glória do Pai
Esperança, enfim
Morreu pra que
A vida que és
Abunde em mim.
Sou teu
Enfim perdoado
De novo gerado
Fui vivificado
Por Vós adotado
Eternamente.